terça-feira, 11 de dezembro de 2007

O IRRESISTIVEL CLICK

Por quê um ladrãozinho qualquer aceita falar nos microfones de um repórter daqueles programas sensacionalistas policialescos das emissoras popularescas, quando são presos e mostrados em situação humilhante perante as câmeras, se sabem que aquela reportagem somente servirá para denegrir sua imagem perante a familia, amigos, filhos e, muitas vezes, para suas declarações serem usadas como confissão no inquérito e a unica intenção do apresentador do programa, do repórter e da emissora é conseguir uma boa audiência para ganharem um bom dinheiro com a propaganda, sem dar-lhe um unico centavo de comissão?
Por quê um politico qualquer pego supostamente num ato pouco ético ou nada ético, ou acusado de corrupção, ou de ter uma amante às escondidas, insiste em dar entrevistas para a imprensa, sabendo que será, apenas, ridicularizado pelos comentaristas e apresentadores dos telejornais, quando transmitirem a matéria, muitas vezes editando-a de forma a escamotear da opinião publica suas justificativas ou defesa?
Por quê um foragido da Justiça aceita dar entrevistas "em lugar reservado" para emissoras de televisão, sabendo que esta entrevista será, obviamente, repassada às autoridades para que tentem descobrir onde o foragido se encontra para que possam prende-lo?

Há alguns anos, ao ver no programa Globo Repórter uma entrevista com aquela famossissima advogada Georgina de Freitas, que teria fraudado o INSS em centenas de milhões de reais, segundo divulgado pelas autoridades e propagandeado pela imprensa em geral, comentei que ela acabava de fazer a maior besteira da vida dela. Segundo a reportagem, Georgina havia concedido a entrevista num pais da região do Caribe, onde estaria foragida da Justiça, "sob o compromisso da Globo de não divulgar o local onde se encontrava". Duas semanas depois, estava presa na Policia Federal, que descobriu o tal pais e até seu endereço. Era obvio que alguém da Globo dedou sua localização.

Quando ainda era estudante de direito no Rio de Janeiro, costumava frequentar com assiduidade as sessões de julgamentos nos Tribunais do Juri do Forum local, e assistir a audiências nos processos publicos, sempre que podia, principalmente nos periodos de férias. Num desses julgamentos, o promotor de Justiça apresentou a gravação de uma entrevista concedida pelo réu a uma radio da cidade, onde confessava o crime ao repórter que o entrevistava, dando detalhes de seu cometimento. O réu, perante o Juiz, negara por duas vezes ser o autor do crime. O advogado que o defendia protestou, mas o juiz permitiu que os jurados ouvissem aquela gravação. O Juiz até teve o cuidado de mandar que o oficial de justiça colocasse, primeiro, apenas um pequeno trecho do inicio da entrevista, e perguntou ao Réu se aquela era mesmo a voz dele. Quando o réu respondeu que sim, o juiz permitiu que o restante da entrevista fosse ouvida pelos jurados. O Promotor de Justiça praticamente não tinha provas concretas contra o réu: suas testemunhas eram fracas, nenhuma delas havia realmente presenciado o cometimento do crime; a arma do crime, uma faca, jamais fora encontrada pela policia; não foram encontrados vestigios de sangue nas roupas usadas pelo réu, e, por fim, o réu negava, em juizo, ser o seu autor. Tudo estava a seu favor para a sua absolvição pelos jurados, não fosse aquele raio de entrevista, que acabou por convencer o Conselho de Sentença de que fora ele mesmo quem cometera o crime. O sujeito levou 6 anos de cadeia nas fuças, por causa de uma entrevista.

Há pouco tempo, na minha cidade de Itajubá, o jornal Itajubá Noticias publicou uma entrevista com um empresario, onde ele dizia haver sido arrendatario de uma radio local, e envolvia na trasação, como se fossem seus sócios, duas outras pessoas, inclusive o atual prefeito da cidade. Um ex-empregado da radio entrou com ação na Justiça do Trabalho, reclamando um monte de direitos trabalhistas, e propos a ação contra a Radio (empresa) e contra seus supostos arrendatarios (aquele empresario falastrão e seus dois amigos). Não havia um unico documento que comprovasse a sociedade entre o empresario que falou demais, o prefeito e o outro suposto socio. Mas aquela entrevista levou a Justiça do TRabalho, em duas instâncias, a reconhecer que os tres seriam os arrendatarios, e a condena-los a pagar os direitos do ex-empregado. Um deles, que não era o falastrão, foi quem se estrumbicou feio, porque terminou pagando tudo sozinho, porque a Justiça bloqueou uma conta bancaria sua e sequestrou a grana para pagar o ex-empregado da Radio.

Na edição dessa semana da revista Veja, li uma extensa entrevista com a ex-primeira dama Rosane Collor, agora também ex-mulher do ex-presidente e atual senador Fernando Collor de Melo. Fazem 15 anos que Fernando Collor deixou a presidência da Republica diante da mais hedionda e difamatória campanha já feita contra um presidente da Republica desde os tempos em que Gelulio Vargas era escrachado pelo jornalista Carlos Lacerda, então proprietário do jornal Ultima Hora carioca, na década de 1950.

A reportagem com Rosane Collor somente a denegria e denegria ainda mais a imagem do ex-presidente, insistindo em coloca-lo para a opinião publica como um corrupto e a ela, Rosane, como uma dondoca irresponsável, apesar de Collor de Mello haver sido absolvido de todas as acusações de corrupção, concussão e até de roubar pirulito de criança que lhe fizeram na época, entre 1990 e 1992, quando a politicalha suja que crassa nesse pais, aliada a um empresariado descontente com a saudável concorrência externa de produtos importados liberada por Collor de Melo, aliada a boa parte do mundo artistico e intelectual que, antes de Collor, vivia nas tetas do governo, e, aliada, por fim, aos setores da midia nacional que depende, para sobreviver, da publicidade dos grandes empresarios e banqueiros nacionais, o derrubou do Poder.

E, mesmo assim, com Veja tendo participado ativamente daquela campanha suja, inclusive com fotos mentirosas de capa sobre os jardins da Casa da Dinda, Rosane Collor, que sabia que seria ridicularizada na edição daquela entrevista, a concedeu.

Pombas...

Por quê Georgina de Freitas concedeu á Globo uma entrevista que a levaria para a cadeia?

Por quê aquele réu do Rio de Janeiro concedeu a uma Radio uma entrevista que lhe rendeu 6 anos de xilindró?

Por quê bandidos comuns aceitam ser ridularizados perante todo o pais nas entrevistas que concedem semi-nus e algemados, tendo atras de si um painel com propaganda da Policia, a programas policialescos de televisão?

Porque não aguentam -- ou não aguentamos, todos nós, bandidos ou não -- o som irresistivel de um click de máquina fotográfica, o refletor de uma câmera de televisão, os microfones de uma rádio ou gravador de som.

Somos, todos, bandidos ou não, verdadeiros idiotas.

Um comentário:

cs disse...

irresistivel click ou 5 minutos de fama a que cada um pensa que tem direito.

parabens pelo blog. me pareceu muito lúcido....

voltarei