quinta-feira, 22 de maio de 2008

SANGUINETTI DE NOVO

Ontem a imprensa noticiou a entrada no caso da menina Isabella Nardoni, do perito George Sanguinetti.
Sanguinetti passou a atuar no caso, a pedido da defesa do casal Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá, acusados de agredir, esganar, matar e jogar pela janela a propria filha e enteada, de apenas 5 anos de idade, cujos resultados da pericia oficial e do fantasioso inquérito policial comandado por um Promotor de Justiça sob os holofotes das redes de televisão, serviu de base para a denuncia deste mesmo Promotor e a decretação da absurda, ilegal e, pior, inconstitucional, prisão preventiva do casal.
Para quem não se lembra quem seja George Sanguinetti, refresco-vos a memória: trata-se daquele perito chato -- um pentelho, mesmo, para ser pouco educado -- que, simplesmente, desmoralizou o então "maior perito do Brasil", um certo Badan Palhares, que afirmava em seu laudo, há mais de dez anos atrás, que o famoso PC Farias (lembram-se dele?) teria sido assassinado em sua casa por sua namorada Suzana Marcolino, a qual, depois de assassinar o ex-tesoureiro de Fernando Collor de Melo, teria se suicidado. O laudo de Badan, na época, tinha o firme propósito de afastar qualquer investigação maior acerca do crime, porque uma investigação séria poderia apontar para o proprio irmão de PC Farias, na época deputado federal.
George Sanguinetti desmoralizou o laudo de Badan Palhares, a investigação da Policia civil de Alagoas, mas, mesmo assim, jamais foi apurada a verdadeira autoria do crime, que, qualquer idiota percebia, tratava-se de um duplo homicidio (quem matou PC Farias matou , também, Suzana Marcolino naquele quarto da casa da praia de Guaxuma, em Maceió).
Sinceramente, não tenho esperanças para o casal Nardoni.
Sanguinetti já começou atirando. Depois de examinar os laudos e a "prova técnica" que os embasou, concluiu: 1) a menina não fora agredida antes de cair do prédio; 2) não houve esganadura: 3) ela não sangrou, nem dentro do carro, nem no apartamento, porque não havia manchas de sangue em suas roupas feitas antes de ela chegar ao chão do jardim onde caiu; 4) não houve vomito da menina.
Como disse acima, não tenho esperanças para o casal Nardoni.
Alexandre e Ana Carolina já estão condenados préviamente, principalmente se foram julgados logo, como pretende o Promotor que comandou aquele inquérito.
A Policia Civil de São Paulo não pode, de maneira alguma, apresentar a sociedade o verdadeiro assassino ou assassinos, mesmo se soubessem quem são, porque, senão, estaria totalmente desmoralizada, e o Promotor de Justiça também, depois de todo o estardalhaço feito em cima da pobre menina. A propria imprensa paulista, sobretudo a televisada, não admitiria um novo réu para o caso, porque também ficaria desmoralizada, já que deu todo o apio às conslusões do falacioso inquérito policial.
Sanguinetti pode provar o que quiser. A sorte de Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá já está lançada, a menos que saiam em liberdade agora, com o julgamento do mérito dos Habeas Corpus impetrados pelos advogados.
Se forem postos em liberdade, ai, sim, talvez, com menos midia em cima quando se aproximar o dia do julgamento -- daqui a uns 5 anos ou mais -- tenha Sanguinetti alguma chance de ser levado a sério por um corpo de jurados.
Lembro-me de um caso em que um rapaz assassinou uma pessoa bem quista da sociedade da sua cidade. O rapaz o assassinou porque, sendo autor de pequenos furtos, penava nas mãos da policia civil, toda vez que era preso por esses crimes, quase sempre "dedurado" pelo tal cidadão, que se fazia de informante da policia. Como já o havia matado, aproveitou para roubar o que tinha na carteira e no carro. O caso era claro de homidicio doloso qualificado, cuja pena vai de 12 a 30 anos de cadeia. O problema é que o julgamento, nesse caso, seria feito por um Tribunal do Juri e o advogado do rapaz poderia demonstrar que a vitima não era pessoa tão certinha assim, que era um dedo-duro da policia e, certamente, levava alguma vantagem com isso. O Promotor, então, denunciou o rapaz pelo crime de latrocinio e não homidicio. A diferença entre os dois é que o latrocinio é o homidicio cometido para fins de roubar pertences da vitima, ou para ocultar a autoria do crime de roubo. Ou seja, o ladrão mata para roubar ou rouba e, depois mata, para que a vitima não o denuncie. Não foi isso o que aconteceu. O rapaz matou por vingança, todo mundo sabia disso.
A Justiça aceitou a denuncia do promotor pelo latrocinio e o juiz o condenou a 30 anos de cadeia. Sim, o juiz, porque no latrocinio o julgamento não é feito por um Tibunal do Juri, aquele Conselho constituido por 7 cidadãos, que resolvem se o reu é culpado, inocente, e, se culpado, em que grau.
Jogando a decisão para o juiz e não para o Tribunal do Juri, não se corria o risco de chegar a publico as alegações do advogado sobre o "porque" o rapaz teria matado aquele cidadão, já que não haveria aquelas sessões de Juri que, normalmente, levam centenas de pessoas até o Forum, para assisti-las.
O caso do rapaz daquela cidade me parece muito semelhante ao caso do casal Nardoni.
Seria um choque para a sociedade -- e desmoralizante para o Ministerio Publico, a POlicia Civil paulista, a imprensa em geral -- se um Juri chegasse ou se chegar a conclusão de que não há provas para que sejam condenados, ou, pior, a de que são totalmente inocentes.
Alias, pior ainda: a de que o assassino ou assassina seria..........

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O CASO ISABELA: JUSTIÇA GREGA E GROGUE

Que beleza seria a Justiça brasileira, se fosse tão agil como está sendo no caso do assassinato da menina Isabella Nardoni. Que maravilha seria se os delegados encerrassem seus inquéritos rigorosamente dentro do prazo da lei -- 30 dias, no caso de os indiciados estarem soltos -- e os entregassem ao Judiciário em duas vias, uma para o Ministério Publico cujo Promotor de Justiça o analisará para oferecer ou não a denuncia e outra para o Juiz, para que este, antes mesmo de o Ministério Publico oferecê-la, ou não, tome conhecimento do seu conteúdo e também forme sua opinião para acata-la, caso oferecida, ou não, e também tenha decisão pré-formada sobre o eventual ou certo pedido de decretação de prisão preventiva dos denunciados.
Mas, infelizmente, não é assim, a não ser que a Globo, o SBT, a REDETV, a BANDEIRANTES o queiram.
Fiquei, realmente, impressionado com a rapidez do Juiz Mauricio Fossem que, recebendo em seu gabinete ontem uma peça de denuncia assinada pelo proprio promotor que acompanhou -- ou melhor, comandou -- as investigações policiais, acompanhada de um inquérito com mais de mil páginas em vários volumes, inclusive laudos periciais, no mesmo dia conseguira analisar tudo o que nele se continha, para decidir pelo seu recebimento (da denuncia) e pela decretação da prisão preventiva do casal Alexandre Nardoni e Ana Jatobá, pai e madrasta da pobre criança assassinada. Não sabia eu -- fiquei sabendo hoje pela manhã -- que os delegados haviam entregue duas copias do inquerito, uma para o promotor e outra para o proprio juiz, antes do feriado do dia do Trabalhador.
Não se duvidava que a prisão preventiva do casal seria decretada, ainda mais que o juiz que a decidiria seria o mesmo que já havia decretado a prisão temporaria, e teve sua decisão revogada pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. O Juiz Mauricio Fossem já está convencido, não pelo inquérito -- embora certamente pense que assim o seja -- mas pela imprensa falada, escrita, televisada, que o casal Nardoni é o assassino da propria filha e enteada.
Eu não.
Até agora aquelas pericias contraditórias, as investigações dirigidas desde o inicio para apontarem a culpa do casal, o show de pirotecnia em que se transformou aquela falaciosa reconstituição do crime, o desejo de aparecer na televisão dos delegados e do promotor que fazia questão de desrespeitar o tal sigilo do inquérito para dar entrevistas na porta da delegacia contando o que o casal ou testemunhas falaram em seus depoimentos (repararam que o sigilo sómente havia para os advogados, que não sabiam, exatamente, o que continha o inquérito, mas que a imprensa conseguia até copias dos depoimentos??), os antecedentes excelentes do relacionamento da menina com o pai e com a madrasta (vejam o video do supermercado, feito horas antes do crime, onde a menina, como toda criança tratada carinhosamente pelos pais, está dentro do carrinho de compras), a falta total de motivação para o crime, os antecedentes de Alexandre e Ana Jatobá, cujos parentes e vizinhos em momento algum apontaram um unico ato de violência entre ambos ou para com os filhos, a falta de boa vontade da policia e do promotor em ouvir o menino Pietro, que teria presenciado todo o ocorrido dentro daquele apartamento e dentro do carro (dizem que a menina começou a ser agredida ainda no carro da familia, onde Pietro estava ao seu lado), a falta de boa vontade da policia e da promotoria em investigar a propria mãe da criança, a falta de boa vontade da policia e da promotoria em investigar a denuncia de um camarada que disse que a casa ao lado do prédio havia sido arrombada, nada fora furtado, e dela seria possivel adentrar no prédio, a ausencia inexplicável de câmeras de segurança na garagem e nos corredores de um prédio de classe média alta, dotado até de duas piscinas em sua área de lazer, os depoimentos de testemunhas não confirmados -- como a idiota que teria dito que Alexandre Nardoni, ao lado da filha morta no jardim, mandara o porteiro subir ao apartamento porque lá havia um homem, querendo, a tal vizinha (se é que ela existe) dizer com isso que Alexandre teria tentado incriminar o porteiro, fazendo-o ir ao apartamento e lá deixar suas marcas --, tudo, tudo isso e muito mais, me levam a crer que a Policia paulista não tinha competencia para desvendar um crime, criou os culpados nas pessoas de Alexandre e Ana Carolina e dirigiu toda a "investigação" no sentido de comprovar essa culpa.
Não, nada até agora me convenceu da culpa daquele casal, muito pelo contrário.
No programa global Fantastico do ultimo domingo, 4 de maio, um especialista disse ser possivel, sim, a realização da pericia no suposto sangue encontrado no carro, que os peritos oficiais disseram não ser suficiente para o exame de DNA, a fim de comprovar ser o não da menina. Seria o tal exame mitocondrial. Os peritos oficiais, no entanto, se recusaram a fazê-lo. Isso leva-me a crer que, realmente, nem mesmo sangue seria o que existe (se é que algo existe) naquele carro. Não há como se explicar que alguém tenha limpado com alvejantes o suposto sangue da menina perto do sofá e lavado uma frauda que também supostamente conteria seu sangue, e se esquecesse de limpar também o sangue do corredor. Não há como explicar que o pai da menina houvesse subido na cama para joga-la pela janela, se seria mais simples afastar a cama para atingir a janela de forma mais fácil: como foi cortada a tela de proteção? Com a menina no colo? Então, se não foi afastada a cama para que a tela fosse cortada (há, apenas uma marca das sandalias de Alexandre sobre a cama e não mais de uma), porque não existem mais de uma marca das sandalias, se ele teria subido na cama, pelo menos, duas vezes, uma para cortar a tela e outra para jogar a menina? Se, por outro lado, a cama foi afastada para que a tela fosse cortada, então porque subiu na cama, depois, para joga-la? Ele subiu na cama, sim, mas para olhar para baixo, quando viu a tela cortada. E, lógico, debruçou-se sobre o parapeito da janela, fazendo as marcas que a tela deixou em sua camisa.
Não, não há nenhuma prova ou indicio, pelo menos até agora, de que o casal seja o assassino.
Essa questão de que outra pessoa não teria tempo para cometer o crime é pura balela, porque nem sequer há a certeza de quanto tempo levou entre o carro entrar na garagem e a menina ser jogada. Não me convence a tal historinha pra boi dormir de que o motor do carro fora desligado as 23:40 aproximadamente, mesmo porque isso entra em contradição com depoimentos de testemunhas que teriam dito que ouviram Isabella (ou o irmão dela) gritando e os pais discutindo. Para tentar ajustar-se à vontade da policia, uma das testemunhas chegou a dizer na televisão que seu relógio estava atrasado 15 minutos, por isso disse que o casal teria discutido as 23 horas e poucos minutos. Seria engraçado se não fosse trágico e ridiculo.
O casal foi denunciado como autor do crime. É claro que seria. Alguém imagina que o promotor que comandou toda a investigação dirigida a comprovar a culpa daquele casal, não o denunciaria? passou pela cabeça de alguém que esse mesmo promotor simplesmente concluiria que não havia indicios da culpabilidade do casal, depois de todas as entrevistas coletivas dadas na porta da delegacia e fora dela? É claro que o casal seria denunciado. O casal foi novamente preso. Alguém duvidaria que o fosse, se o juiz é o mesmo que já havia decretado, sem motivo, a sua prisão provisória, depois revogada pelo Tribunal de Justiça?
Não, o casal não foi preso por ordem do Juiz Mauricio Fossem.
Foi preso por ordem da Globo, da Bandeirantes, da RedeTV, da Record, do SBT, que mostravam o povo -- ou melhor, aquela parte vagabunda do povo, que não tem o que fazer, tipo mulher de vila que fica na janela de sua casa cuidando da vida dos vizinhos -- na porta do prédio onde o casal estava, e na porta da delegacia, querendo "justiça".
Na antiga Grécia, o Povo julgava os acusados em praça pública. Daí a origem dos Tribunais do Juri, pelo qual, alias, será futuramente julgado o casal Nardoni se for pronunciado pelo juiz do caso (alguém duvida que o será?).
No Brasil, em certos casos, faz-se uma Justiça Grega: o povo, levado pela imprensa, é quem decide. Pena que seja, também, uma Justiça grogue.