Convenhamos: se numa sexta-feira, o programa Globo Repórter resolver fazer uma matéria sobre os amuletos da sorte e falar sobre os galhos de arruda, com certeza a imagem que será exibida será a do governador do Distrito Federal recebendo aqueles tais R$ 50 mil reais das mãos do cafajeste do seu ex-assessor, não é verdade?
Conheço José Roberto Arruda desde os 16 anos de idade, quando, no Colégio XIX de Março, em Itajubá, lá no Sul de Minas Gerais, cursava o 2º Grau, na época chamado de “colegial”. Arruda ensinava matemática e, por sinal, me reprovou em trigonometria, em 1974. Detesto trigonometria. A questão do envolvimento do meu ex-professor de matemática, inteligentíssimo – pelo menos, naquela época – , nos escândalos de corrupção dos Deputados Distritais que, como os Federais do Lula, recebiam uma graninha por fora para votarem projetos de interesse do seu governo, já esta decidida. A única diferença entre Lula e Arruda é que esse ultimo não foi pulverizado com teflon quando nasceu para a política, embora também tenha dado muita sorte na vida: de simples filho de ferroviário pobre, numa cidade do interior de Minas Gerais, conseguiu formar-se engenheiro pela Universidade Federal de Itajubá, na época chamada Escola Federal de Engenharia de Itajubá, e foi para Brasília, onde ocupou diversos cargos de elevada importância em empresas estatais, chegou a Deputado, Senador e Governador do Distrito Federal. Perdendo a inteligência através dos tempos, caiu na armadilha do então presidente do Senado Antonio Carlos Magalhães no famoso caso do painel: por mero interesse pessoal, ACM queria provar que a então Senadora Heloisa Helena havia votado contra a cassação do colega Luiz Estevão, acusado de algumas falcatruas. Heloisa Helena, que deixara o PT numa briga com o partido do qual foi expulsa por não seguir a orientação do governo na votação do Projeto de Reforma da Previdência Social, fundara o PSOL. Não tinha, como não tem hoje, nenhuma importância política, nenhum peso especifico, nem ela, nem seu partido. Podia ser comparada a Enéas Carneiro e seu PRONA. Mas ACM tinha uma pendenga pessoal com Heloisa, que se postava, como até hoje, de moralista, e era sua arqui-inimiga no Senado. Então, resolveu desmoraliza-la, provando que ela votara contra a cassação de um suposto corrupto,como Luiz Estevão. Para tanto, usou de Arruda, para violar o segredo do painel eletrônico. Com o escândalo, ambos, ACM e Arruda, terminaram por renunciar ao mandato, sob ameaça de serem cassados. Arruda despediu-se do Senado chorando em seu discurso da tribuna, onde berrava que “não tinha matado, nem tinha roubado”.
Quando todos pensavam que havia se acabado para a politica, deu a volta por cima, como o mais votado deputado Federal do Distrito Federal nas eleições seguintes, e acabou muito bem eleito Governador, quatro anos depois, para terminar caindo nas mãos de alguns safados imorais, como o sujeito que lhe entregava os R$ 50 mil, enquanto filmava a cena, para dá-la de bandeja para a oposição e o Ministério Publico três anos depois de gravada. A imagem é de setembro de 2006 e veio a publico no final de 2009.
A oposição conquistou a Globo que repete a cena quase diariamente em seu maior telejornal e, apenas duas ou três vezes, de passagem, disse tratar-se de uma gravação da época que ele era ainda deputado, para que todo mundo pense que ele esta recebendo o dinheiro como Governador. Veio a historia imbecil, criada não por ele, mas por um outro assessor idiota, que era dinheiro para panetones, e até “recibo” dos tais panetones apareceu. Tudo montado numa armação grosseira, que somente, por incrível que pareça, alguns juízes não vêem. Era dinheiro para campanha eleitoral, doada por empresários que sempre doam dinheiro para candidatos com alguma chance de chegarem ao poder, porque empresário não está ai para fazer gracinha pra ninguém.
Mas Arruda permanecia, ainda que cambaleante e cada vez mais nas mãos de deputados distritais corruptos, no poder. Surge, então, a armação definitiva: um jornalista, cuja simples figura já desperta-me suspeitas de que não deve ser companhia recomendável, denuncia que o Governador teria lhe oferecido alta propina para que dissesse que os vídeos gravados – aquele em que ele aparece recebendo os R$ 50 mil reais e os em que aliados aparecem botando dinheiro nas meias e nas cuecas – teriam sido adulterados, ou seja, seriam montagens. Para sustentar sua versão, há um vídeo onde aparece recebendo uma sacola com supostos R$ 200 mil reais, em um restaurante, das mãos de um assessor de uma estatal brasiliense, e mostra umas anotações esquisitas que alega ser um bilhete do Governador lhe propondo a propina.
Os advogados do governador preso dão entrevistas contraditórias: primeiro, o tal bilhete onde proporia a propina ao jornalista fora “furtado” de sua mesa; logo depois, o tal bilhete pode “até ter sido entregue” ao emissário pelo governador. Esqueceram de dizer que aquilo não é bilhete coisa nenhuma e manter a devida coerência, como deve qualquer bom defensor. Se eu for preso, por favor, não chamem esses advogados para me defenderem, não. Chamem o promotor, que vou estar melhor assessorado.
A Globo conquistou os Ministros do STJ e até do STF. Numa armação tipo Verônica que só Gustavo Brandão, da novela das 6 da emissora (Cama de Gato), não vê, surgiu a tal historia da tentativa de corrupção de testemunha, aquele jornalista medíocre e mal encarado de apelido Sombra. R$ 200 mil reais entregues para que ele dissesse que as gravações eram fajutas. Somente os Gustavo Brandões da vida poderiam acreditar num negócio desses. Dar R$ 200 mil reais como “entrada”, para que uma testemunha dissesse que uma gravação, que qualquer pericia pode dizer ser autentica, seria falsa. Nem que a admirada inteligência de Arruda em 1974 tivesse se esvaído por completo, que houvesse se tornado o mais imbecil dos acusados. Mas conseguiram com que os Ministros do STJ decretassem a prisão de Arruda por causa disso. Ah, agora diz-se que também a decretaram porque Arruda estaria atrapalhando o processo político de sua cassação na Assembléia. Estão certos: jamais nenhum prefeito, governador ou presidente da Republica, no Mundo, tentou, politicamente, barrar CPIs nas respectivas Câmaras Legislativas. Só Arruda. Nem Lula tentou barrar CPIs, através de negociações políticas, não é verdade? Agora, digam-se os doutos em direito penal: onde esta tipificado no velho Código de 1940, ou nas tais leis extravagantes penais mais atuais, o crime de negociação política?
A prisão de Arruda, armada pelas Verônicas brasilienses, teve um único objetivo, que os Ministros do STJ não perceberam, ao decreta-la: a completa desmoralização política e pessoal do meu velho professor de matemática. A violência de uma prisão, por mais que o sujeito fique em sala de Estado Maior ou mesmo em prisão domiciliar, é tão forte, que faz desabar psicologicamente o atingido pela violência do Estado. Advém o desânimo, o sentimento de impotência, o travamento do exercício de livre defesa, a infinita humilhação de ter que pedir autorização a um guarda ou carcereiro para ir a um banheiro, se a cela não o tiver, ou usar o vaso existente na cela praticamente na frente de todos. Come-se na hora em que seus carcereiros querem lhe dar comida. Dorme-se pensando que, a qualquer momento, um guarda passará pela cela batendo com o cassetete nas grades, apenas pelo prazer de incomodar-lhe o sono. Agüenta-se sorrisinhos de escárnio, como quem está lhe dizendo: “e então, governador, está com saudades do palácio??
O futuro de Arruda, preso, está selado. A própria prisão foi provocada para derruba-lo de vez à vista do populacho.
O Ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo, já declarou no Jornal Nacional sábado, 20 de fevereiro: há uma metástase no Governo de Brasília, referindo-se a uma suposta corrupção generalizada nos dois poderes, executivo e legislativo do Distrito Federal. Falava, em tese, sobre a possibilidade de intervenção federal, pedida pela Procuradoria da Republica, cujo titular, alias, não perde oportunidade de aproximar-se de um microfone de TV. Na verdade, falava sobre Arruda. O STF deverá decidir sobre a intervenção e sobre a liberdade do já, garanto, ex-governador.
Quando eu fazia a Faculdade, ta certo que lá se vão 30 anos, aprendi que juiz (incluídos os desembargadores e ministros) somente falavam nos autos dos processos. Mas, de lá para cá, a coisa parece ter mudado, principalmente depois de a Globo Internacional disponibilizar seus microfones para quem quiser falar o que ela quiser que falem, porque se não for o que ela quiser, não vai ao ar mesmo.
Nem galho de arruda salva mais meu professor Arruda.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
O GERENTAO QUE NÃO MANDA
Nos bons e velhos tempos desse país, havia três altas autoridades nas pequenas cidades do interior: o prefeito, o padre e o gerente do Banco. O sonho dourado de toda mãe de família pobre ou da classe média baixa era ver a filha casada com um funcionário do Banco, já que, normalmente o prefeito já era casado e o Papa não ia gostar de ver o padre celebrando seu próprio matrimônio. Além do mais, o funcionário do Banco podia chegar, um dia, a ser Gerente. Gerente!!! Uma autoridade, enquanto o coitado do prefeito dificilmente chegaria a governador ou presidente da Republica e o padre, provavelmente, jamais chegaria a Bispo, muito menos a Papa.
O gerente mandava, e como mandava. Era ele quem decidia a vida econômica da cidade, captando os depósitos do dinheiro dos ricos, juntando com o dinheiro da poupançazinha dos pobres e emprestando tudo a quem bem entendesse. Cheque especial, limite de crédito na conta-corrente? Falava-se com o gerente e tava resolvido: dependendo do seu saldo médio na conta, levava um talão 5 estrelas ou um não nas fuças, mas que tava resolvido, tava. Somente nas operações muito elevadas, o gerente tinha que consultar um superior, mesmo porque, consultar superior naquela época, não era fácil. Telefone, ainda mais interurbano, levava um dia para completar a ligação. Internet? Nem a palavra existia ainda, quanto mais o serviço. Os caixas não eram eletrônicos. Quando muito, alguns dos caixas mais eficientes e rápidos no atendimento ao publico, eram chamados de “elétricos”.
Mas gerente mandava. E como mandava!
Era uma época em que também o padre mandava: mandava no gerente, no prefeito, na cidade toda. Não tinha quem não tomasse a benção do padre ao cruzar com a autoridade eclesiástica na rua. E ai do gerente ou do prefeito que não fosse à missa no domingo. Ia e comungava, nem que fosse protestante: protestava, mas ia, isso ia.
Padre mandava. E como mandava!
Prefeito também mandava. Tá certo que só não mandava nos fazendeiros que obrigaram os seus lavradores votarem nele nas eleições, mas tinha prefeito que até se atrevia a brigar com um ou outro grande eleitor, e se dava bem. E quando tinha essa coragem, mandava mais ainda. O prefeito era Prefeito, a maior autoridade administrativa da cidade. Juiz, normalmente nem aparecia, porque a sede da comarca, onde ficava o Fórum, era a léguas de distância. Promotor? Naquela época, raros eram os que tinham “estabilidade” no emprego, porque não eram concursados, mas indicados por um político da região e, se o tal político ficasse meio, digamos, aborrecido com o apadrinhado, tirava ele da comarca na próxima visita que fizesse à capital, isso se não perdesse o emprego de vez. As verbas das prefeituras eram gastas pelo prefeito – honesto – da melhor maneira que achava que as devia gastar em beneficio do povo. A documentação das prestações de contas aos Tribunais de Contas era a mais simples possivel. O principio era o de que todo prefeito era honesto, até prova indiscutível em contrario.
Prefeito mandava. E como mandava!!
O tempo passou. Telefone fala, salvo desonrosas exceções, na hora em que a gente liga. Surgiu o fax, e a internet. Os caixas “elétricos” dos bancos foram mandados embora, por medida de economia de custos, e substituídos pelos caixas eletrônicos. Ninguém mais quer casar com funcionário de banco, porque, se ele chegar a gerente, tanto faz. Gerente não manda mais. Até o computador da sua mesa manda mais que ele: dá cheque especial para quem vai dar o cano no banco, e nega empréstimo para o sujeito que paga suas contas em dia, ou quer o empréstimo justamente para botar suas contas em dia. Gerente não manda mais. Padre, então? Nem a benção na rua ou mesmo antes da missa, lhe pedem mais. E, se ele exigir que o cidadão confesse seus pecados antes de comungar, senão o Bispo o excomungará, o cara responde que, agora, Bispo é o Macedo e se bandeia para a oposição. Padre não manda mais.
Prefeito mandava, também não manda mais, desde que trocaram-lhe o nome de Prefeito, para Gestor. Prefeito virou Gestor público. Não pode mais dar aquela casa popular a quem mais precisa, não. As assistentes sociais, primeiro, têm de fazer a “anamnese” (isso, mesmo, uma tal de anamnese) do cidadão, para ver se ele, realmente, precisa da casa. E tem uma lista de candidatos à casa, que passará, além dos assistentes sociais, até pela Caixa Econômica Federal, se o dinheiro para a construção da casa veio de lá. Emprego para o povo na prefeitura? Tem que fazer concurso publico!!! Uma prova escrita onde um monte de gente de fora aparece na cidadezinha num domingo, depois de ter passado semanas estudando pelas apostilas de concursos que compraram nas bancas de jornais de suas cidades, e acaba ficando com a vaga do cidadão da cidadezinha, onde não tinha banca de jornal para ele comprar a apostila. Depois da posse dos aprovados, o prefeito vê que acabou tendo que admitir um monte de gente incompetente, que não tem a mínima idéia do que é o serviço naquela prefeitura, mas sabe de cor a formula para calculo de velocidade, espaço e tempo. Tava na apostila. Ele não pode contratar aquele antigo funcionário que trabalhava há anos e anos na prefeitura e conhecia toda a máquina administrativa, porque o cara não passou no concurso, e acabou sendo mandado embora, dando o lugar para o camarada do X=V.T. As obras que o prefeito quis realizar no seu mandato, tão paralisadas. Ele não podia contratar uma empresa que conhece, que é séria e faz um bom serviço. Teve que fazer licitação. Participaram dez empresas, cada uma se propondo a fazer por menos, para ganhar o serviço. Uma delas até ganhou, mas tá tudo parado porque as outras entraram na Justiça com recursos e a coisa tá encrencada. As obras, já iniciadas, estão se deteriorando. Logo, tudo vai ter que ser refeito, se um dia a Justiça decidir, afinal, quem vai tocar a obra e isso se o cara ainda quiser tocar a obra. O prefeito queria comprar a melhor marca de caminhão para a Secretaria de Obras, mas não deu. A grana ate que dava para pagar por um Ford ou Mercedes novinho em folha, mas, na licitação, venceu a firma que ofereceu o caminhão pelo menor preço: um FNM (Fenemê, lembram-se dele?), novinho em folha, zerinho, zerinho, que a firma guardou por 40 anos até encontrar um trouxa que o comprasse. Fazer o quê? O edital da licitação não podia dizer a marca, mas, apenas que a prefeitura queria comprar um caminhão, com capacidade para 15 toneladas, zero quilômetro. Tai o FNM.
Gerente, e pior do que gerente de banco dos dias atuais. O gerente presta contas do que faz com o dinheiro do banco para o diretor. O prefeito presta contas para o Tribunal de Contas, para a Câmara de Vereadores, para a Caixa Econômica Federal, para o Banco do Brasil, para as ONGs do sistema Transparência Brasil, para o Ministério Publico, para a Justiça quando os políticos da oposição reclamam para o Juiz que o prefeito não esta deixando dinheiro nenhum para eles gastarem quando assumirem o “poder”, e ate para alguns repórteres da Globo, do SBT, da Record e da Bandeirantes.
O Gerentão que não manda, nem desmanda, e ainda ganha pouco, porque senão a Fátima Bernardes e o Willian Bonner, que não querem ninguém ganhando mais do que eles, vão fazer cara de nojo e chamá-lo de marajá.
Raul Seixas cantava numa de suas musicas: “mamãe, não quero ser prefeito/pode ser que eu seja eleito.....”. Tinha razão.
O gerente mandava, e como mandava. Era ele quem decidia a vida econômica da cidade, captando os depósitos do dinheiro dos ricos, juntando com o dinheiro da poupançazinha dos pobres e emprestando tudo a quem bem entendesse. Cheque especial, limite de crédito na conta-corrente? Falava-se com o gerente e tava resolvido: dependendo do seu saldo médio na conta, levava um talão 5 estrelas ou um não nas fuças, mas que tava resolvido, tava. Somente nas operações muito elevadas, o gerente tinha que consultar um superior, mesmo porque, consultar superior naquela época, não era fácil. Telefone, ainda mais interurbano, levava um dia para completar a ligação. Internet? Nem a palavra existia ainda, quanto mais o serviço. Os caixas não eram eletrônicos. Quando muito, alguns dos caixas mais eficientes e rápidos no atendimento ao publico, eram chamados de “elétricos”.
Mas gerente mandava. E como mandava!
Era uma época em que também o padre mandava: mandava no gerente, no prefeito, na cidade toda. Não tinha quem não tomasse a benção do padre ao cruzar com a autoridade eclesiástica na rua. E ai do gerente ou do prefeito que não fosse à missa no domingo. Ia e comungava, nem que fosse protestante: protestava, mas ia, isso ia.
Padre mandava. E como mandava!
Prefeito também mandava. Tá certo que só não mandava nos fazendeiros que obrigaram os seus lavradores votarem nele nas eleições, mas tinha prefeito que até se atrevia a brigar com um ou outro grande eleitor, e se dava bem. E quando tinha essa coragem, mandava mais ainda. O prefeito era Prefeito, a maior autoridade administrativa da cidade. Juiz, normalmente nem aparecia, porque a sede da comarca, onde ficava o Fórum, era a léguas de distância. Promotor? Naquela época, raros eram os que tinham “estabilidade” no emprego, porque não eram concursados, mas indicados por um político da região e, se o tal político ficasse meio, digamos, aborrecido com o apadrinhado, tirava ele da comarca na próxima visita que fizesse à capital, isso se não perdesse o emprego de vez. As verbas das prefeituras eram gastas pelo prefeito – honesto – da melhor maneira que achava que as devia gastar em beneficio do povo. A documentação das prestações de contas aos Tribunais de Contas era a mais simples possivel. O principio era o de que todo prefeito era honesto, até prova indiscutível em contrario.
Prefeito mandava. E como mandava!!
O tempo passou. Telefone fala, salvo desonrosas exceções, na hora em que a gente liga. Surgiu o fax, e a internet. Os caixas “elétricos” dos bancos foram mandados embora, por medida de economia de custos, e substituídos pelos caixas eletrônicos. Ninguém mais quer casar com funcionário de banco, porque, se ele chegar a gerente, tanto faz. Gerente não manda mais. Até o computador da sua mesa manda mais que ele: dá cheque especial para quem vai dar o cano no banco, e nega empréstimo para o sujeito que paga suas contas em dia, ou quer o empréstimo justamente para botar suas contas em dia. Gerente não manda mais. Padre, então? Nem a benção na rua ou mesmo antes da missa, lhe pedem mais. E, se ele exigir que o cidadão confesse seus pecados antes de comungar, senão o Bispo o excomungará, o cara responde que, agora, Bispo é o Macedo e se bandeia para a oposição. Padre não manda mais.
Prefeito mandava, também não manda mais, desde que trocaram-lhe o nome de Prefeito, para Gestor. Prefeito virou Gestor público. Não pode mais dar aquela casa popular a quem mais precisa, não. As assistentes sociais, primeiro, têm de fazer a “anamnese” (isso, mesmo, uma tal de anamnese) do cidadão, para ver se ele, realmente, precisa da casa. E tem uma lista de candidatos à casa, que passará, além dos assistentes sociais, até pela Caixa Econômica Federal, se o dinheiro para a construção da casa veio de lá. Emprego para o povo na prefeitura? Tem que fazer concurso publico!!! Uma prova escrita onde um monte de gente de fora aparece na cidadezinha num domingo, depois de ter passado semanas estudando pelas apostilas de concursos que compraram nas bancas de jornais de suas cidades, e acaba ficando com a vaga do cidadão da cidadezinha, onde não tinha banca de jornal para ele comprar a apostila. Depois da posse dos aprovados, o prefeito vê que acabou tendo que admitir um monte de gente incompetente, que não tem a mínima idéia do que é o serviço naquela prefeitura, mas sabe de cor a formula para calculo de velocidade, espaço e tempo. Tava na apostila. Ele não pode contratar aquele antigo funcionário que trabalhava há anos e anos na prefeitura e conhecia toda a máquina administrativa, porque o cara não passou no concurso, e acabou sendo mandado embora, dando o lugar para o camarada do X=V.T. As obras que o prefeito quis realizar no seu mandato, tão paralisadas. Ele não podia contratar uma empresa que conhece, que é séria e faz um bom serviço. Teve que fazer licitação. Participaram dez empresas, cada uma se propondo a fazer por menos, para ganhar o serviço. Uma delas até ganhou, mas tá tudo parado porque as outras entraram na Justiça com recursos e a coisa tá encrencada. As obras, já iniciadas, estão se deteriorando. Logo, tudo vai ter que ser refeito, se um dia a Justiça decidir, afinal, quem vai tocar a obra e isso se o cara ainda quiser tocar a obra. O prefeito queria comprar a melhor marca de caminhão para a Secretaria de Obras, mas não deu. A grana ate que dava para pagar por um Ford ou Mercedes novinho em folha, mas, na licitação, venceu a firma que ofereceu o caminhão pelo menor preço: um FNM (Fenemê, lembram-se dele?), novinho em folha, zerinho, zerinho, que a firma guardou por 40 anos até encontrar um trouxa que o comprasse. Fazer o quê? O edital da licitação não podia dizer a marca, mas, apenas que a prefeitura queria comprar um caminhão, com capacidade para 15 toneladas, zero quilômetro. Tai o FNM.
Gerente, e pior do que gerente de banco dos dias atuais. O gerente presta contas do que faz com o dinheiro do banco para o diretor. O prefeito presta contas para o Tribunal de Contas, para a Câmara de Vereadores, para a Caixa Econômica Federal, para o Banco do Brasil, para as ONGs do sistema Transparência Brasil, para o Ministério Publico, para a Justiça quando os políticos da oposição reclamam para o Juiz que o prefeito não esta deixando dinheiro nenhum para eles gastarem quando assumirem o “poder”, e ate para alguns repórteres da Globo, do SBT, da Record e da Bandeirantes.
O Gerentão que não manda, nem desmanda, e ainda ganha pouco, porque senão a Fátima Bernardes e o Willian Bonner, que não querem ninguém ganhando mais do que eles, vão fazer cara de nojo e chamá-lo de marajá.
Raul Seixas cantava numa de suas musicas: “mamãe, não quero ser prefeito/pode ser que eu seja eleito.....”. Tinha razão.
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