quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

QUE QUER O BISPO BAIANO ??

Eu compreendo perfeitamente o choro da atriz Leticia Sabatella diante da sede do Supremo Tribunal Federal, em Brasilia, quando foi prolatada a decisão que cassou a liminar impedindo as obras de transposição parcial -- e bota parcial nisso!! - do Rio São Francisco. Como haviam fotógrafos e cinegrafistas por perto, ela que, como toda boa -- e bota boa nisso, gente!!! - atriz tem que aparecer de qualquer jeito, abriu o berreiro -- mesmo porque, quem não chora não mama, principalmente uns pontinhos a mais no ibope.

A atitude do Bispo Luiz Cappio, de Barra, na Bahia, contudo, vem me impressionando muito mais do que as lagrimas de crocodi....., digo, da bela Sabatella -- com rima e tudo.

Como o país e o Vaticano sabem, Bispo Cappio entrou pela segunda vez em greve de fome, desde que o governo resolveu dar continuidade as obras de transposição do São Francisco, fracassadas que foram as negociações (não sei pra que tais negociaçoes) com a turma que parece desejar que a água para o sertão nordestino venha, apenas, da torneira de São Pedro.

As obras haviam sido paralisadas, também, por uma liminar judicial, porque estaria se averiguando se a transposição de menos de 1 por cento (isso aí, gente: menos de 1 por cento) de todo aquele aguaceiro do leito do rio para canais de irrigação sertão adentro, causaria algum dano ecológico, ou seja havia qualquer ilegalidade no projeto ou nos contratos para as obras.

O STF acabou decidindo que não. Os peixes não correm risco na piracema, as aves que lá gorjeiam continuarão gorjeando, as borboletas borboleteando, os macacos macaqueando....e alguns Bispos, praguejando. Também decidiu que -- por incrivel que pareça!! -- não há ilegalidade nem suspeita de falcatrua nos projetos, licitações, contratos. Bom, pelo menos por enquanto.

O sonho do aproveitamento das águas do Velho Chico para irrigação do sertão ou parte do sertão nordestino, acima da Bahia, vem de muito antes de Raquel de Queiróz haver escrito "O Quinze", onde retratava uma das maiores e trágicas secas ocorridas na região, no inicio do século passado. Na verdade, vem desde o Império, como do Império era o plano da construção da Capital do Brasil no centro-oeste, e da construção de uma ponte (ou tunel) que ligasse Rio de Janeiro a Niterói. O sonho de Brasilia realizou-se cerca de 80 anos depois de D. Pedro II, que a queria capital do Império, mas, em seu tumulo em Paris no final da década de 1950, não deve ter ficado bravo com Juscelino por te-la construido como capital da Republica. O tunel Rio-Niteroi foi convertido numa Ponte de 14 qulometros de extensão sobre a Baia da Guanabara, obra dos governos militares pós-revolução de 1964. D. Pedro II também não deve ter se revirado no tumulo, nem mesmo sendo a obra construida pelos militares, da mesma estirpe ditatorial daqueles que o derrubaram do poder em 1889, ainda mais porque a ponte ficou muito mais bonita do que ficaria um tunel -- que ninguém veria ao chegar de avião ou de navio á cidade maravilhosa.

Faltava o sonho da transposição do Rio São Francisco, que tomou algum impulso no governo de Fernando Henrique Cardoso e Lula resolveu botar, realmente, em prática -- convocou até Geddel Vieira Lima, o deputado baiano tão "arretado" como o Bispo Cappio, para tocar pra fente o negócio, fazendo-o Ministro da Integração Nacional.

A tansposição do rio não lhe prejudicara em nada, seja o leito, seja a vazão, seja o ecossistema, seja o que for. Estudos do IBAMA e dos demais Institutos envolvidos demonstram claramente isso.

Ao mesmo tempo, resolverá, de fato e perenemente, o problema da seca em grande parte do sertão nordestino, podendo acabar com a miséria, com a fome, ajudando até a, quem sabe daqui a 100 ou 200 anos, acabar com as favelas de São Paulo, Baureri, Carapicuiba, Osasco -- cidades do suposto sul maravilha que ao longo do ultimo século recebeu milhões de nordestinos, alguns vindos nos paus-de-arara (o presidente Lula diz que foi um deles), fugindo da miséria causada pela falta de água a irrigar seu solo.

Até agora não vi um unico argumento lógico, um unico argumento aceitável, dentre aqueles que se dizem contra a transposição parcial do São Francisco.

Então, volto a dizer: compreendo as lagrimas da Sabatella. Mas não dá para compreender a picuinha do Bispo Luiz Cappio. Não dá, mesmo.

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