terça-feira, 15 de abril de 2008

TÕ DUVIDANDO

Pela primeira vez escrevo sobre o chocante assassinato da menina Isabella, ocorrido há duas semanas e pouco em São Paulo. E escrevo para duvidar das supostas conclusões da policia civil paulista, que acabam de ser divulgadas pela imprensa, como li há poucos instantes no site de noticias do UOL.
Aprendi a duvidar, sempre, dos resultados de investigações realizadas sob o fogo cerrado da imprensa, que termina por contaminar a opinião pública dos menos esclarecidos e, pior, acaba contaminando, em muitos casos, até as opiniões daqueles que deveriam ser mais esclarecidos -- e na maioria até o são -- como juizes de direito, que se deixam levar pelo estrelismo ou pelo simples descaso com as consequencias de seus atos, e decretam prisões a torto e a direito (sem trocadilho).
Aprendi a duvidar, sempre, que investigações realizadas na base do estrelismo de delegados, detetives, peritos, promotores de justiça e às vezes até de juizes, conduzam a resultados sérios, muito embora tragam consequencias sérias para as vitimas dessas investigações tortas.
O pai da menina morta e sua esposa, que era madrasta de Isabella, ficaram mais de uma semana presos, porque poderiam atrapalhar as investigações. Bobagem pura. Jamais atrapalharam nada, pelo contrario. Não havia uma unica noticia de que estariam tentando dominar as testemunhas, de que estariam fabricando ou destruindo provas. Tiveram a prisão provisória decretada por um juiz, apenas porque S. Excelência ficou impregnado pela mesma indignação que atingiu a todos nós, quando a policia apresentou, logo de cara, como suspeitos, os proprios pais da criança assassinada -- ou o pai e a madrasta, tanto faz. É lógico que isso nos revolta muito mais se o assassino for um desconhecido. Mas não pode, em momento algum, nortear a decisão de um juiz, ainda mais porque as informações, os indicios que serviriam de base para a suspeita, não eram indicios droga nenhuma, como, educadamente, escreveu o Desembargador que foi o relator do pedido de Habeas Corpus, e mandou soltar o casal.
A delegada que conduzia o Inquérito não perdia a oportunidade de dar suas declarações para os jornalistas ("já temos 70 por cento do caso esclarecido", dizia ela, quando não estava perdidinha da silva); o promotor de justiça que acompanha o caso, trocava de gravata a cada ida a delegacia daquela delegada, para não aparecer em publico com a mesma gravata do dia anterior, e dar suas declarações bombásticas, até em entrevistas coletivas ("o casal deu declarações fantasiosas", disse ele, depois de acompanhar o depoimento dos suspeitos, quando as investigações estavam sob sigilo); o delegado-chefe, que era, na verdade, o presidente do inquérito, contradizia sua subalterna, talvez enciumado porque ela aparecia mais que ele na TV, para, depois, retornar e, em nova entrevista, dizer que com ela concordava. Peritos supostamente divulgavam que manchas de sangue teriam sido encontradas no carro e nas roupas do pai, quando não havia mancha de sangue nenhuma, nem na roupa daquele pedreiro que trabalhava para a irmã do suspeito.
Mais de 50 pessoas ouvidas como testemunhas. Retorno dos peritos por varias vezes ao apartamento do casal, para tentar descobrir novas provas técnicas, porque deram bobeira nas vezes anteriores e não recolheram todo o material que deveriam. Chegou-se ao ridiculo de o proprio advogado de defesa levar peças de roupas de seus clientes para a delegacia, para serem periciadas, duas semanas depois do crime.
Parece tudo uma grande brincadeira de mal gosto. Testemunhas que teriam ouvido a menina gritar "Para pai, para pai", quando talvez seja mais lógico que tivesse gritado "Paaaraaa. Paiiiiii. Paiiiii", num grito de socorro por seu pai contra alguém que a estivesse agredindo.
Agora, a policia paulista concluiu, segundo a UOL: a madrastra bateu na menina até que ela sangrasse tanto e chegasse a desfalecer. Diante do desfalecimento, pensando que a menina estaria morta, o pai a jogou pela janela, e, depois, tentou simular a invasão do apartamento por um estranho.
Lembro-me até hoje do grande -- para a turma dele -- Badan Palhares, o maior perito do pais, tentando nos fazer acreditar no impossivel: o de que uma tal de Suzana sei lá das quantas, teria assassinado Paulo Cesar Farias e depois se suicidado, na casa de praia de Guaxuma de propriedade do ex-tesoureiro e pivo do imbloglio que levou a queda de Fernando Collor da presidencia da Republica, há uns quinze anos. Lembro-me do ridiculo de Badan Palhares ficar jogando um livro grosso no chão da casa, para que os jornalistas do lado de fora vissem que o barulho de um livro caindo poderia se assemelhar ao de um tiro de revólver. Idiota não era Badan, que estava ali para servir sei lá a quem -- não à apuração da verdade -- , mas o populacho que acreditava no que ele dizia. Lembro-me que escrevi sobre o caso numa coluna que tinha no jornal Região Sul, lá na minha Itajubá, sul das Gerais, e alguém me disse que aquele peritozinho vendido iria me processar. Babagens. Primeiro, porque ele talvez jamais sequer leu o que escrevi; segundo, porque, se houvesse lido, sabia que era tudo verdade.
Estou duvidando das investigações da policia paulista no caso de Isabella. Isso é triste, muito triste. Primeiro, porque, seu eu estiver com a razão, o verdadeiro bandido assassino daquela pobre menina, ficará livre, leve e solto; segundo, porque provavelmente, condenados pela opinião publica não pensante, também o serão por um juiz que não quer saber da Globo dizendo que ele vendeu sentença, então preferirá condena-los à pena máxima por um crime que, acredito eu, salvo convencimento futuro contrario -- o que está me parecendo tão dificil que resolvi escrever esta crônica -- não cometeram; terceiro, porque, com isso, a gente vai confiando cada vez menos nas investigações policiais no Brasil.
Talvez tudo mudasse nesse pais, se delegados, promotores, juizes, investigadores de policia e até testemunhas fossem proibidos de dar entrevistas, sob pena de serem removidos dos casos ou impedidos de testemunharem no processo.
Talvez tudo mudasse nesse pais, talvez pudessemos levar a sério as investigações policiais, se o Congresso Nacional aprovasse e o presidente Lula sancionasse uma lei com dois artigos, apenas: "Art. 1º - Fica proibido o estrelismo de autoridades no Brasil. Art. 2º - Revogam-se as diposições em contrario".
O diabo é que não existe mais nenhuma princesa Isabel para assinar a Lei Áurea da seriedade.