terça-feira, 9 de junho de 2009

VOLTEMOS AOS TECO-TECOS

Numa noite de rigoroso inverno de 1974, um avião pertencente a uma companhia norte-americana, alçou vôo do Aeroporto de Washington D.C, nos Estados Unidos. Poucos segundos depois, a aeronave destruía em sua queda livre vários automóveis sobre a ponte do Rio Potomac, na capital norte-americana, e caia sobre o leito do rio semi-congelado. Vários morreram na ponte, a maioria dos passageiros e tripulantes daquele jato, enregelados dentro do rio.
Na noite de domingo retrasado, um dos mais modernos jatos do mundo, um Airbus 330, partia do Galeão, no Rio de Janeiro, com destino a Paris. Pouco depois do Arquipélago de Fernando de Noronha enfrenta uma tempestade e se despedaça no mar. Até o momento em que escrevo essa crônica, sobreviventes não foram encontrados. Provavelmente não serão.
As investigações do acidente na França concluíram, pelas mensagens automáticas enviadas pelo avião – a tripulação não enviou nenhuma – que aeronave não enfrentou a tempestade violenta na velocidade correta. Estava abaixo da velocidade que deveria estar. Seu equipamento medidor de velocidade falhou e enganou o piloto automático e o piloto humano.
Naquela noite em Washington, também o piloto foi enganado pelo “velocímetro” do avião. O "pito" que fica na fuselagem das aeronaves, que mede a velocidade com que o ar entra por sua abertura para que o computador calcule a velocidade do avião, estava entupido pelo gelo do inverno norte-americano. O piloto puxou o manche para trás e alçou vôo antes do avião atingir a velocidade correta para tanto, o jato tentou subir mas não conseguiu e se esborrachou sobre a ponte e o Rio Potomac. O "pito" do jato da Air France também estaria com defeito – ou o equipamento a ele ligado estava – e o piloto humano e o computador de bordo que comanda o piloto automático acharam que poderiam enfrentar a tempestade naquela velocidade, que o sistema lhes dizia que era a correta, e se despedaçaram sobre o oceano.
Passaram-se 35 anos do desastre do Potomac até que um defeito igualzinho ao daquela aeronave provocou outra tragédia.
Em 1999, o "reverso", sistema automático de frenagem por reversão de impulso das turbinas dos aviões, fundamental para que a aeronave consiga diminuir a velocidade até o momento do acionamento dos freios mecânicos durante um pouso, falhou no aeroporto de Congonhas. Um Folker 100 da TAM esborrachou-se sobre uma rua do bairro Jabaquara depois de tentar levantar vôo e não conseguir, porque o "reverso", que so deveria abrir no momento do pouso e quando o avião já esta na pista, abriu no momento da decolagem, "segurando" ao avião e impedindo que as turbinas lhe dessem velocidade e impulso suficiente para a subida.
Oito anos depois, em 2007, outro avião da mesma TAM provocou um dos maiores acidentes da história da aviação mundial, quando, pousando no mesmo aeroporto de Congonhas, não conseguiu frear, atravessou toda a extensão da pista, passou por sobre uma avenida e chocou-se contra um prédio da propria companhia aérea. Não conseguiu frear porque, além de outros problemas, o tal "reverso" de uma das turbinas não estava funcionando, ou seja, não abriu quando deveria. O piloto sabia, a TAM sabia, todo mundo sabia que aquele reverso não estava funcinando, mas, mesmo assim, o avião levantou vôo em Porto Alegre e foi até São Paulo, descendo em outros aeroportos pelo caminho até se esborrachar em Congonhas.
Em 1989, um Boing da Varig pousou, à noite, no meio da floresta amazônica, porque o piloto confiou nos computadores do avião, cegamente. Tão cegamente que não viu que não poderia estar na rota correta, porque deveria voar para o norte com o sol a sua direita, mas o sol estava na sua cara, portanto voava para Oeste naquele final de tarde no aeroporto de Imperatriz, no Maranhão. O Varig estaria seguindo para Belém, em linha reta norte, mas seguiu para o seio da floresta amazônica, linha reta oeste. Até hoje não entendi como o piloto humano não se apercebeu do erro do automático, do sistema eletro-mecânico-cibernético-sei-lá-o-quê do moderníssimo Boing.
O avanço das máquinas nos deixa burros. Eu não posso dizer que o piloto do Air France foi burro, mesmo porque ainda não conheço, como acho que nenhum Ser humano desse planeta ainda conheça, o que realmente aconteceu, mas que César Garcez, daquele Varig foi, assim como seu co-piloto Zille, isso foi. Garcez confiou na marcação da rota 270 feita no computador, quando deveria haver digitado 027, desprezando o zero da direita. O erro da programação foi da Varig, que não deveria ter colocado aquele zero na esquerda. Matou 12 de seus passageiros, embora tenha salvo mais de 40 ao demonstrar extrema perícia – e sorte – ao pousar no meio da floresta amazônica, a noite, sobre árvores, um avião de sei lá quantas toneladas, sem uma gota de combustível.
Em 2006, um modernissimo jatinho Legacy da Embraer, novinho em folha, abalroou em pleno vôo, também sobre a selva amazônica, um modernissimo Boing da Gol. Ambos eram dotados dos mais sofisticados computadores e aparelhos de segurança. Impossivel que dois jatos daquele nível chocassem-se em pleno ar. Mas os aparelhos falharam, os computadores falharam. Se o transponder do Legacy estava desligado, propositalmente ou não pelos pilotos que o conduziam, o do Gol não estava, nem seus outros aparelhos, como o radar que indica até nuvens pesadas e tempestades à frente com um minimo de 15 minutos de antecedência. Não indicou o Legacy vindo em sua direção, na mesma "pista". Quase duzentos mortos foi o resultado do excesso de confiança nos computadores.
Uma vez voei num aviãozinho do Sr. Expedido Aparecida, da minha Itajubá, sobre a cidade de São Lourenço, em Minas Gerais. Aquele negocio não tinha computador, não tinha radar de bordo, não tinha nem buzina. O controle era todo manual, feito pelo próprio Expedido, que era o piloto, o co-piloto e comissário de bordo. Levantamos vôo do aeroporto de São Lourenço, que nem torre de controle tem, sobrevoamos a cidade e sua micro-região durante uns 20 minutos e pousamos no mesmo aeroporto na mais perfeita segurança. Sem computadores, sem pilotos automáticos para fazer o serviço que competia exclusivamente ao Expedito.
Acho que, quando for atravessar o oceano atlântico, desprezarei os computadores da Air France, da Tam, da United Airlines, e vou pedir o aviãozinho do Expedido Aparecida emprestado.

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