terça-feira, 26 de agosto de 2008

D. PEDRO I TINHA RAZÃO?

No já distante ano de 1978, chegava a uma cidadezinha meio perdida no sudoeste da Bahia, um itajubense, enviado pelo Banco do Brasil. Na verdade, quase não chega, porque nem os baianos sabiam dizer onde ficava a tal de Macarani. No aeroporto de Ilhéus, apenas 220 kms de sistancia, ninguém sabia informar onde ficava aquele lugar. Nem mesmo os colegas do Banco do Brasil da terra de Jorge Amado haviam ouvido falar de Macarani. E olha que lá já existia uma agência do Banco. O jovem funcionário do Banco fora designado gerente da agência daquele fim de mundo. Perseverante, enfrentou 180 km de estrada mal asfaltada entre Ilhéus e Itapetinga, mais 44 km de estrada de terra, estreita, esburacada e enlameada até chegar à tal Macarani, que praticamente não passava de uma vila. Assumiu a gerência da agência do BB, onde só havia dinheiro de fazendeiro criador de gado de corte. Empreendeu um programa de incentivo, para o desenvolvimento da pecuária leiteira e de incentivo ao comércio.
A política era dividida entre duas famílias, ambas de coronéis fazendeiros. Ora governava a cidade os Fernandes, ora os Correia que, muitas vezes, trocavam tiros nas ruas. Candidatou-se o itajubense a prefeito em 1982 e venceu com os votos dos pobres. E pobre em Macarani era pobre mesmo, gente que vivia em barraco de madeira. Acabou a briga entre os Correia e os Fernandes, que passaram unirem-se contra aquele mineiro atrevido. Em 1988 conseguiu eleger seu sucessor, após realizar uma tal transformação na cidade, que Macarani passou a ser conhecida em toda a Bahia. Até entre os seus colegas do Banco do Brasil de Ilhéus. O sucessor suicidou-se em 1991. Seu mandato foi terminado pelo vice. Em 1992 voltou a se eleger e, durante os quatro anos seguintes (93/96), nova transformação ocorreu na cidade. Uniu-se ao cacique baiano ACM e ao Deputado Federal Helio Correia – a família já não mais brigava com ele --, também carlista, e reconstruíram a estrada Itapetinga/Macarani, agora com asfalto. Se no primeiro mandato trouxe o sinal de televisão para a cidade (sim, senhores, até 1983, Macarani não conhecia o plim-plim da Globo, e nunca viu o indiozinho da Tupi, que fechou antes), a energia elétrica (Macarani funcionava com gerador a óleo), e o telefone (Macarani se comunicava por rádio-amador), no segundo construiu conjuntos de casas populares, desenvolveu o SAAE, passando a cidade a ter água tratada, pavimentou ruas e deu-lhes infra-estrutura de água e esgoto encanados e, confiando no Governo Estadual, construiu o Hospital. O governo lhe deu o cano na verba para a construção do hospital. Para termina-lo, usou dinheiro da prefeitura e, no ultimo ano do mandato, atrasou o pagamento dos funcionários 2 meses. Seu candidato a sucessão, o deputado Hélio Correia perdeu as eleições para a oposição, comandada por um fazendeiro local (mas que não era Correia nem Fernandes), empresário em São Paulo, bem vestido e bem falante, que prometeu até o Reino dos Céus ao povo em palanque. A derrota foi flagorosa, diga-se a bem da verdade: 1.600 votos de frente, num eleitorado de menos de 8 mil eleitores. Nas eleições de 2000, já permitida a reeleição, o empresário paulista também vence, mas, agora, disputando diretamente com o mineirinho, sua vantagem foi muito menor, apenas 600 votos, diante de um eleitorado de quase 9 mil eleitores.
Durante o segundo mandato do empresário paulista – nenhuma promessa do primeiro foi cumprida – ele resolve passar um ano e meio entre seus colegas de Sampa, e deixa a prefeitura, oficialmente, nas mãos do vice, um médico e fazendeiro local, esse sim, de sobrenome Fernandes. Nunca ia a prefeitura. Quando muito, para assinar documentos e olhe lá, porque há documentos em que a assinatura não confere de jeito nenhum. Teve suas contas relativas ao ano de 2002 rejeitadas pelo Tribunal de Contas e pela Câmara Municipal. Em 2004, o mineirinho retoma a prefeitura, nos braços do povo. Em 3 anos e meio, pavimentou novos bairros inteiros, fez infra-estrutura naqueles que, criados ao longo de 8 anos da administração oposicionista, não tinham nem esgoto nem iluminação. Remodelou o Hospital, contratou 14 médicos para plantões permanentes. Construiu 3 Unidades do Programa Saúde da Família. Trouxe faculdade e deu bolsas de estudo.Formou e capacitou professores. Passou a pagar um salário mínimo a funcionários que, no governo anterior, ganhavam meio salário, um absurdo diante da Constituição Federal. Passou a conceder as licença premio, as férias remuneradas com acréscimo de um terço na remuneração, e cumprir toda a legislação trabalhista e os estatutos do funcionário publico, cujo cumprimento sempre foi negado pelo governo do empresário paulista e do vice médico e fazendeiro, que também foi prefeito. Construiu Quadras de Esportes iluminadas para jogos a noite, em quase todos os bairros. Incrementou o Programa Bolsa-familia, que no governo anterior beneficiava apenas 600 familias pobres e algumas famílias ricas, mas amigas dos então governantes, passando a beneficiar mais de 3 mil famílias pobres e nenhuma rica, que tiveram seus benefícios cassados. Construiu e entregou, em locais totalmente urbanizados, nada menos do que 160 casas populares. Paga em dia os funcionários e fornecedores, a maioria destes do próprio municipio.
Hoje, disputa a reeleição com o mesmo médico/fazendeiro (todo fazendeiro e nada médico, já que jamais assinou uma única receita médica, segundo dizem na cidade), que, apesar de ter sido impugnado e ter o registro da candidatura negado pela Justiça Eleitoral, ainda faz campanha porque aguarda julgamento de recurso ao Tribunal Regional Eleitoral. O fazendeiro filiou-se ao mais barulhento, e corrupto, partido brasileiro, segundo dão conta os processos movidos contra seus ex-dirigentes nacionais, destacando-se corrupção da grossa em Santo André e o mensalão de Brasília.
A reeleição do mineirinho deveria se tranqüila, sem qualquer espaço para a oposição. Mas, nas ruas, há uma barulheira enorme e, por impressionante e decepcionante que possa parecer, há uma grande – embora não seja a maioria – parte da população, que o segue nas suas carreatas e comícios, que faz festa e agita vigorosamente as bandeiras vermelhas. E, nesta parte da população, destacam-se servidores municipais e jovens, muitos jovens.
Servidores municipais que não tinham direito algum quando o fazendeiro administrou a cidade durante um ano e meio, quando o empresário paulista a administrou por 6 anos e meio. Que recebiam meio salário mínimo, que não gozavam férias ou licenças premio. Jovens que, quando crianças, não tinham escolas decentes, nem professores capacitados, e que viajavam, quando residentes dos distantes distritos, em cima de caminhões de leite para irem às aulas – quando tinham aulas, claro -- e que, hoje, viajam em ônibus escolares.
Não sou contra as disputas, porque, na sua maioria, as disputas são saudáveis. Mas é duro ter que disputar com alguém que demonstrou, no passado e demonstra no presente não ter a mínima qualificação para o cargo, mas que tem dinheiro próprio e enorme patrocínio de terceiros para levar adiante uma campanha, sem nenhuma, absolutamente nenhuma, proposta de governo, de desenvolvimento.
Se não fosse a paixão que D. João VI , um estrangeiro, desenvolveu pelo Brasil quando para cá fugiu de Napoleão Bonaparte em 1807/1808, a ponto de aqui permanecer até 1821, quando poderia ter retornado com segurança a Portugal desde 1815, de haver sufocado rebeliões separatistas, de haver desenvolvido o comércio e uma incipiente industria, e não fosse deixar ele aqui seu filho Pedro, aconselhando-o mesmo, se necessário, a proclamar a independência do Brasil, dificilmente seriamos esse país continental e absolutamente uno que somos hoje. Fora alguns arroubos do passado do Rio Grande do Sul, nunca fomos ameaçados por divergências entre o sul e o norte, que colocassem em risco a unidade nacional. Não temos territórios xiitas, curdos ou seja lá o que for. Não temos guerras entre províncias ou estados. Devemos isso a D. João VI e D. Pedro I.
Mas D. Pedro I, apenas 4 anos depois de proclamar a independência, viu-se obrigado a abdicar ao trono e deixar o Brasil. Conseguiram, contra ele, arregimentar grande parte – certamente não a maioria – do povo brasileiro.
Essa parte barulhenta do povo brasileiro da época, guiados por gente da mais absoluta má-fé, levou D. Pedro I a achar que nada mais valia a pena fazer pelo povo, embora tivesse a obrigação de tudo fazer para o povo.
Foi o que bradou D. Pedro I, provavelmente de saco cheio, certo dia: “Tudo farei para o povo; nada, porém, pelo povo”. Ou seja, cumprirei minha obrigação de governante, pela obrigação, não mais por amor.
Quanto mais conheço certa parcela do povo brasileiro, mas acho que D. Pedro I tinha razão.

Um comentário:

Anônimo disse...

DIRETO DE ITAJUBÁ (MACARANI É AQUI)

ESTRANHA A SEMELHANÇA QUE EXISTE ENTRE A SITUAÇÃO BAIANA, MINEIRA E BRASILEIRA. A DIFERENÇA BÁSICA É QUE TANTO NA BAHIA COMO NO BRASIL IMPERIAL TRATAVAM-SE DE ESTRANGEIROS QUE CHEGAVEM PARA CONSERTAR UMA SUCESSÃO DE ERROS. NO CASO MINEIRO, AO CONTRÁRIO, FALAMOS DE UM FILHO DA TERRA, NÃO SÓ DE MINAS MAS DA CIDADE. O POVO REALMENTE MERECE QUE OS GOVERNANTES OS TRATEM COMO INCAPAZES OU, NO MÍNIMO, COMO SEMI-IMPUTAVEIS. COMO VIRAM AS COSTAS A QUEM LHES DEU UM HORIZONTE DE CONQUISTAS E CAEM NOS BRAÇOS DE UM SUPOSTO HERÓI QUE SEMPRE POSOU DE VÍTIMA A VIDA TODA. NÃO PODE SER BOM VEREADOR PORQUE O PREFEITO DA ÉPOCA NÃO PERMITIU, NÃO CONSEGUIU SER O VICE-PREFEITO QUE SONHAVA PORQUE DIVERSOS MEMBROS DO GOVERNO NÃO DEIXARAM. SE FOR UM PREFEITO RUIM COM CERTEZA ELEGERÁ UM CULPADO OU CULPADA PELO SEU FUTURO FRACASSO.
BENDITO SEJAM JOÃO E PEDRO E QUE O POVO PAGUE PELOS SEUS PECADOS.

JÚLIO CÉSAR ANSELMO DE CASTRO