Nos bons e velhos tempos desse país, havia três altas autoridades nas pequenas cidades do interior: o prefeito, o padre e o gerente do Banco. O sonho dourado de toda mãe de família pobre ou da classe média baixa era ver a filha casada com um funcionário do Banco, já que, normalmente o prefeito já era casado e o Papa não ia gostar de ver o padre celebrando seu próprio matrimônio. Além do mais, o funcionário do Banco podia chegar, um dia, a ser Gerente. Gerente!!! Uma autoridade, enquanto o coitado do prefeito dificilmente chegaria a governador ou presidente da Republica e o padre, provavelmente, jamais chegaria a Bispo, muito menos a Papa.
O gerente mandava, e como mandava. Era ele quem decidia a vida econômica da cidade, captando os depósitos do dinheiro dos ricos, juntando com o dinheiro da poupançazinha dos pobres e emprestando tudo a quem bem entendesse. Cheque especial, limite de crédito na conta-corrente? Falava-se com o gerente e tava resolvido: dependendo do seu saldo médio na conta, levava um talão 5 estrelas ou um não nas fuças, mas que tava resolvido, tava. Somente nas operações muito elevadas, o gerente tinha que consultar um superior, mesmo porque, consultar superior naquela época, não era fácil. Telefone, ainda mais interurbano, levava um dia para completar a ligação. Internet? Nem a palavra existia ainda, quanto mais o serviço. Os caixas não eram eletrônicos. Quando muito, alguns dos caixas mais eficientes e rápidos no atendimento ao publico, eram chamados de “elétricos”.
Mas gerente mandava. E como mandava!
Era uma época em que também o padre mandava: mandava no gerente, no prefeito, na cidade toda. Não tinha quem não tomasse a benção do padre ao cruzar com a autoridade eclesiástica na rua. E ai do gerente ou do prefeito que não fosse à missa no domingo. Ia e comungava, nem que fosse protestante: protestava, mas ia, isso ia.
Padre mandava. E como mandava!
Prefeito também mandava. Tá certo que só não mandava nos fazendeiros que obrigaram os seus lavradores votarem nele nas eleições, mas tinha prefeito que até se atrevia a brigar com um ou outro grande eleitor, e se dava bem. E quando tinha essa coragem, mandava mais ainda. O prefeito era Prefeito, a maior autoridade administrativa da cidade. Juiz, normalmente nem aparecia, porque a sede da comarca, onde ficava o Fórum, era a léguas de distância. Promotor? Naquela época, raros eram os que tinham “estabilidade” no emprego, porque não eram concursados, mas indicados por um político da região e, se o tal político ficasse meio, digamos, aborrecido com o apadrinhado, tirava ele da comarca na próxima visita que fizesse à capital, isso se não perdesse o emprego de vez. As verbas das prefeituras eram gastas pelo prefeito – honesto – da melhor maneira que achava que as devia gastar em beneficio do povo. A documentação das prestações de contas aos Tribunais de Contas era a mais simples possivel. O principio era o de que todo prefeito era honesto, até prova indiscutível em contrario.
Prefeito mandava. E como mandava!!
O tempo passou. Telefone fala, salvo desonrosas exceções, na hora em que a gente liga. Surgiu o fax, e a internet. Os caixas “elétricos” dos bancos foram mandados embora, por medida de economia de custos, e substituídos pelos caixas eletrônicos. Ninguém mais quer casar com funcionário de banco, porque, se ele chegar a gerente, tanto faz. Gerente não manda mais. Até o computador da sua mesa manda mais que ele: dá cheque especial para quem vai dar o cano no banco, e nega empréstimo para o sujeito que paga suas contas em dia, ou quer o empréstimo justamente para botar suas contas em dia. Gerente não manda mais. Padre, então? Nem a benção na rua ou mesmo antes da missa, lhe pedem mais. E, se ele exigir que o cidadão confesse seus pecados antes de comungar, senão o Bispo o excomungará, o cara responde que, agora, Bispo é o Macedo e se bandeia para a oposição. Padre não manda mais.
Prefeito mandava, também não manda mais, desde que trocaram-lhe o nome de Prefeito, para Gestor. Prefeito virou Gestor público. Não pode mais dar aquela casa popular a quem mais precisa, não. As assistentes sociais, primeiro, têm de fazer a “anamnese” (isso, mesmo, uma tal de anamnese) do cidadão, para ver se ele, realmente, precisa da casa. E tem uma lista de candidatos à casa, que passará, além dos assistentes sociais, até pela Caixa Econômica Federal, se o dinheiro para a construção da casa veio de lá. Emprego para o povo na prefeitura? Tem que fazer concurso publico!!! Uma prova escrita onde um monte de gente de fora aparece na cidadezinha num domingo, depois de ter passado semanas estudando pelas apostilas de concursos que compraram nas bancas de jornais de suas cidades, e acaba ficando com a vaga do cidadão da cidadezinha, onde não tinha banca de jornal para ele comprar a apostila. Depois da posse dos aprovados, o prefeito vê que acabou tendo que admitir um monte de gente incompetente, que não tem a mínima idéia do que é o serviço naquela prefeitura, mas sabe de cor a formula para calculo de velocidade, espaço e tempo. Tava na apostila. Ele não pode contratar aquele antigo funcionário que trabalhava há anos e anos na prefeitura e conhecia toda a máquina administrativa, porque o cara não passou no concurso, e acabou sendo mandado embora, dando o lugar para o camarada do X=V.T. As obras que o prefeito quis realizar no seu mandato, tão paralisadas. Ele não podia contratar uma empresa que conhece, que é séria e faz um bom serviço. Teve que fazer licitação. Participaram dez empresas, cada uma se propondo a fazer por menos, para ganhar o serviço. Uma delas até ganhou, mas tá tudo parado porque as outras entraram na Justiça com recursos e a coisa tá encrencada. As obras, já iniciadas, estão se deteriorando. Logo, tudo vai ter que ser refeito, se um dia a Justiça decidir, afinal, quem vai tocar a obra e isso se o cara ainda quiser tocar a obra. O prefeito queria comprar a melhor marca de caminhão para a Secretaria de Obras, mas não deu. A grana ate que dava para pagar por um Ford ou Mercedes novinho em folha, mas, na licitação, venceu a firma que ofereceu o caminhão pelo menor preço: um FNM (Fenemê, lembram-se dele?), novinho em folha, zerinho, zerinho, que a firma guardou por 40 anos até encontrar um trouxa que o comprasse. Fazer o quê? O edital da licitação não podia dizer a marca, mas, apenas que a prefeitura queria comprar um caminhão, com capacidade para 15 toneladas, zero quilômetro. Tai o FNM.
Gerente, e pior do que gerente de banco dos dias atuais. O gerente presta contas do que faz com o dinheiro do banco para o diretor. O prefeito presta contas para o Tribunal de Contas, para a Câmara de Vereadores, para a Caixa Econômica Federal, para o Banco do Brasil, para as ONGs do sistema Transparência Brasil, para o Ministério Publico, para a Justiça quando os políticos da oposição reclamam para o Juiz que o prefeito não esta deixando dinheiro nenhum para eles gastarem quando assumirem o “poder”, e ate para alguns repórteres da Globo, do SBT, da Record e da Bandeirantes.
O Gerentão que não manda, nem desmanda, e ainda ganha pouco, porque senão a Fátima Bernardes e o Willian Bonner, que não querem ninguém ganhando mais do que eles, vão fazer cara de nojo e chamá-lo de marajá.
Raul Seixas cantava numa de suas musicas: “mamãe, não quero ser prefeito/pode ser que eu seja eleito.....”. Tinha razão.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
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