quinta-feira, 16 de julho de 2009

SARNEY E O PAIS DOS SEM-VERGONHAS

Um dos mais experientes, velha raposa da politica nacional, caiu numa armadilha de criança. O hoje senador José Sarney, que passou incolume de arauto da ditatura militar (1964/1985), onde chegou a ser presidente da ARENA e do PDS, o segundo sucessor do primeiro, partidos de apoio ao regime da época, conseguiu tornar-se vice-presidente na chapa da oposição (sim, da oposição) às eleições indiretas para a presidência em 1984 e, presidente da Republica alguns meses depois, quando Tancredo Neves faleceu sem ter assumido o poder, esse mesmo homem que governou por mais de uma vez o Maranhão e fez de sua filha também governadora, que manteve-se senador desde que deixou a presidência debaixo de uma popularidade abaixo de zero -- apesar de ter atingido os pincaros da glória em 1986 com seu Plano Cruzado -- e ocupou a presidência do Senado também por mais de uma vez, esta terminando sua carreira politica, provavelmente, no fundo do poço.
Armadilha, pura armadilha em que caiu que nem um patinho.
Nao que seja inocente. Não é, como, aliás, não são nenhum de seus colegas, seja da situação, seja da oposição, seja os de cima do muro.
Esta caindo por causa dos tais Atos Secretos, aquelas nomeações e desnomeações, aumentos e reduções de salarios de servidores do Senado, não publicadas no Diario Oficial porque beneficiavam ou prejudicavam afetos ou desafetos dos manda-chuvas de plantão na Mesa Diretora da Casa. Como esses Atos Secretos não são da época dele -- embora hajam atos ocorridos durante os periodos anteriores em que exerceu a presidencia do Senado -- buscou-se outras formas de derruba-lo, fuçando-se nos inqueritos policiais que investigam seus filhos, por exemplo, nas contas das campanhas eleitorais de Roseana Sarney para o governo do Maranhão e, agora, segundo a Veja dessa semana, até numa suposta conta-corrente que, através do Banco Santos, mantinha no exterior, com um saldo nada desprezivel de quase 2 milhões de reais.
Essa historia da conta no Banco Santos surgiu, na verdade, quando foi decretada a intervenção no Banco pelo Governo. Dizia-se que Sarney tinha uma conta lá e que seu amigo e dono do Banco, Edemar Cid Ferreira o teria ajudado a livrar-se do dinheiro, para nao ficar bloqueado, como a grana dos demais correntistas. O Banco foi a falência, liquidado. Edemar Cid Ferreira chegou a ser condenado a uma boa década na cadeia, embora esteja recorrendo da decisão judicial de primeira instancia, e nunca mais se ouviu falar da suposta grana de Sarney no Banco.
A armadilha da qual falei no inicio dessa crônica foi armada pela turma do Lula, claro, óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues.
Sarney é figurinha carimbada do PMDB. Junto com Renan Calheiros e Geddel Vieira Lima, em termos de nordeste, mandam no partido mais do que sogra indiana manda nas noras. O Partido dos Trabalhadores, do Sr. Luiz Inacio Lula da Silva sabe que, sem o PMDB, não consegue emplacar seu candidato ou candidata a presidencia da Republica no ano que vem. O propro Lula teve que se unir ao antigo PL de José Alencar, partido dos empresarios (alias, so no Brasil, para um partido dos trabalhadores unir-se ao partido dos empresarios numa eleição) para conseguir vencer a eleição de 2002 e ao PMDB, partido nitidamente fisiológico, para as eleições de 2006. Senão, meu amigo, nem o bolsa-familia salvava-o da derrota para Serra ou o Picolé de Chuchu naquelas eleições.
Levando José Sarney a candidatar-se e garantindo sua vitória para a presidência do Senado, colocaria lá um prócer peemedebista, figura de proa do partido no nordeste, maior reduto eleitoral de Lula, que perde tranquilamente para a oposição no Sul e no Sudeste, maiores colegios eleitorais do pais.
Assim que, usando da vaidade de Sarney, levaram-no a se candidatar à presidencia de uma Casa desmoralizada publicamente desde o episódio do painel que obrigou seu então presidente Antonio Carlos Magalhães a renunciar ao mandato, e lograram, efetivamente, elege-lo para a presidencia, Lula e sua turma deram prosseguimento ao maquiavélico plano, fazendo com que surgissem as denuncias, comprovadas, dos tais Atos Secretos, que todo mundo sabia debaixo daquela cupula, que existiam. Todo mundo: os da situação, os da oposição e os de cima do muro. Todo mundo. Não escapa nem o mais "moralista" dos integrantes daquela cor....., quero dizer, daquela casa. Repito: todo mundo sabia. E sabia porque, ao longo de mais de uma década, beneficiaram protegidos de senadores e altos funcionarios que passaram por aquela Casa. Impossivel que algum senador, por mais do baixo clero que fosse, não soubesse.
Com a crise instalada, Lula dá proteção a José Sarney. O Partido dos Trabalhadores, Aloisio Mercadante à frente, diz que quer o afastamento de Sarney. Lula está no exterior. Sarney treme nas bases, porque o partido do presidente da Republica, o segundo maior do Congresso, quer sua cabeça. Mas não é nada disso. Lula mandou o PT dizer que queria a cabeça de Sarney, para, retornando ao pais, chama-lo ao Planalto e dizer que lhe daria apoio. O PT, então, desdiz o que disse publicamente. Pronto, Sarney esta salvo.
Lula e seu PT, então, apresentam a fatura ao PMDB: Voces não terão candidato a presidencia em 2010 e, pior, apoiarão Dilma Russef ou quem a gente quiser, ok?
Sarney tem o que explicar, sim. Não a questão do apartamento funcional cedido para viuva de um motorista. Não a questão da intermediação de emprestimos consignaveis por um banco a servidores do Congresso, realizada por seu filho. Mesmo porque Lula ainda não explicou a questão dos 5 milhões de reais dados pela Telemar a seu filho Lulinha, e outras coisas.
Seria bom que Sarney explicasse essa historia do Banco Santos. Afinal, tomou ele conhecimento antes ou não da intervenção do Banco Central no Santos de seu amigo Edemar e este providenciou a remessa da grana para uma conta no exterior???^
Yes, nós ainda temos bananas. E muita sacanagem também. Como cantaria Lindomar Castilho, somos todos sem-vergonhas.

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